quinta-feira, 26 de junho de 2014

Estabelecendo relações entre o AEE e o texto "O modelo dos modelos" de Italo Calvino



Estabelecendo relações entre o AEE e o texto “O modelo dos modelos” de Italo Calvino

Metaforicamente o senhor Palomar representa a “História da Educação”, onde no início o modelo tradicionalista buscava uma educação homogênea, poucos tinham acesso e apenas o sexo masculino eram privilegiado, geralmente pessoas economicamente favorecidas e sem nenhum tipo de deficiência, brancas e de família tradicional, [...] o mais perfeito, lógico, geométrico possível. Aqueles que não tinham este perfil, eram excluídos deste contexto escolar. As raízes históricas e culturais das deficiências sempre foram marcadas por forte rejeição, discriminação e preconceito. A literatura da Roma Antiga relata que as crianças com deficiência, nascidas até o princípio da era cristã, eram afogadas por serem consideradas anormais e débeis. Na Grécia antiga, Platão relata no seu livro A república que as crianças mal constituídas ou deficientes eram sacrificadas ou escondidas pelo poder público. Os deficientes mentais, eram considerados, muitas vezes, possuídos pelo demônio, por isso eram excluídas da sociedade, [...] saltava a seus olhos uma paisagem humana em que a monstruosidade e os desastres não eram de todo desaparecidos e as linhas do desenho surgiam deformadas e retorcidas.  
[...] A regra do senhor Palomar foi aos poucos se modificando: agora já desejava uma grande variedade de modelos...; Para os filósofos cristãos, a crença oscilava entre culpa e expiação de pecados e, finalmente, com Santo Tomás de Aquino, a deficiência passa a ser considerada como um fenômeno natural da espécie humana.   [...] Para obter modelos transparentes, diáfonos, sutis em meados do século XX surgem as associações de pais de pessoas com deficiência física e mental na Europa e Estados Unidos. No Brasil, são criadas a Pestalozzi e as APAES, destinadas à implantação de programas de reabilitação e educação especial, esses foram os primeiros fios que teceram para o avanço do AEE, visto que os mesmos isolados, segregavam os alunos com este tipo de serviço.
 O senhor Palomar, ou seja, a Educação começa a pensar em um novo jeito com vários modelos [...] Agora já desejava uma grande variedade de modelos. A Declaração dos Direitos Humanos (1948) vem assegurar o direito de todos à educação pública, gratuita. Essas idéias reforçadas pelo movimento mundial de integração de pessoas com deficiência, defendiam oportunidades educacionais e sociais iguais para todos, contribuindo fortemente para a criação dos serviços de Educação Especial e classes especiais em escolas públicas no Brasil. Surge, dessa forma a Política Nacional de Educação, ancorada na Lei Nº4.024/61 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional-LDB), com a recomendação de integrar, no sistema geral de ensino, a educação de excepcionais, como eram chamados na época as pessoas com deficiências. Assim como Palomar que “agora já desejava uma grande variedade de modelos, se possível transformáveis uns nos outros segundo um procedimento combinatório, para encontrar aquele que se adaptasse melhor a uma realidade que por sua vez fosse feita de tantas realidades distintas, no tempo e no espaço.” Esta política propõe um novo olhar para a Educação fazendo valer a obrigatoriedade das escolas receberem TODOS os alunos, seja ele com ou sem deficiência, afinal somos iguais nas nossas diferenças, contudo jamais seremos homogêneos. Embora esses avanços tenham colaborado como condição e expressão da diversidade, os preconceitos continuam fortes.
Para que o AEE aconteça é preciso que todas as pessoas que fazem parte da educação abracem a causa da inclusão se deparando “face a face com a realidade mal padronizável e não homogeneizável, formulando os seus “sins”, os seus “nãos”, os seus “mas”.” No AEE são planejadas inúmeras possibilidades de desenvolvimento para os alunos com deficiência, respeitando as habilidades e especificidades de cada um. Trabalhamos com as potencialidades e não com as limitações.
No AEE não olhamos por partes, tentamos compreender o todo. Porque enxergar a deficiência, antes mesmo de saber mais sobre aqueles que não andam, não enxergam ou não ouvem? Porque apontar o que o outro não pode fazer, antes de perguntar o que ele tem a oferecer?
O AEE favorece um trabalho colaborativo e compartilhado, com a participação do professor da sala comum, professor de AEE, família, colegas e todos que fazem parte do contexto escolar e social, de acordo com a realidade vivida pelo sujeito.