Educação Escolar
de Pessoas com Surdez- Atendimento Educacional Especializado em Construção
Este texto trata
de um embate político epistemológico que aproximadamente
há dois séculos, existe entre os gestualistas e os oralistas, destacando as
discussões e ações desenvolvidas em prol da educação das pessoas com surdez,
responsabilizando o sucesso ou o fracasso escolar com base na adoção de uma ou
de outra concepção com suas práticas pedagógicas específicas. Enquanto as discussões ficam centradas na
aceitação de uma língua ou de outra, as pessoas com surdez não têm o seu
potencial individual e coletivo desenvolvido, ficam secundarizadas e
descontextualizadas das relações sociais das quais fazem parte, sendo relegadas a uma condição excludente ou a uma
minoria.
Sabemos que a
nova política de educação no Brasil vem tecendo fios direcionais que
possibilitam superar uma visão centrada de homem, sociedade, cultura e
linguagem de forma fragmentária, certamente, não só como um modismo, mas que se
consolidará numa perspectiva de inclusão de todos, com especial destaque para
as pessoas com deficiência. Neste ponto, uma
nova política de Educação Especial na perspectiva inclusiva, principalmente
para pessoas com surdez, tem se tornado promissora no ambiente escolar e nas
práticas sociais/institucionais. Por mais que as
políticas estejam já definidas, muitas questões e desafios ainda estão para serem
discutidos, muitas propostas, principalmente no espaço escolar, precisam ser
revistas e algumas tomadas de posição e bases epistemológicas precisam ficar
mais claras, para que, realmente, as práticas de ensino e aprendizagem na
escola comum pública e também privada apresentem caminhos consistentes e
produtivos para a educação de pessoas com surdez.
O problema da educação das pessoas com surdez não pode
continuar sendo centrado nessa ou naquela língua, como ficou até agora, mas
deve levar-nos a compreender que o foco do fracasso escolar não está só nessa
questão, mas também na qualidade e na eficiência das práticas pedagógicas. É
preciso construir um campo de comunicação e interação amplo, possibilitando que
as línguas tenham o seu lugar de destaque, mas que não sejam o centro de tudo o
que acontece nesse processo. As pessoas com surdez poderão ser
estimulados e desenvolvidos, tornando-se sujeitos capazes, produtivos e
constituídos de várias linguagens, com potencialidade para adquirir e
desenvolver não somente os processos visuais-gestuais, mas também ler e escrever
as línguas em seus entornos e, se desejar, também falar. Isso nos faz pensar
num sujeito com potencial a ser estimulado e desenvolvido nos aspectos
cognitivos, culturais, sociais e lingüísticos, pois a concepção de pessoa com
surdez descentrada se caracteriza pela diferença, Hall (2006). É nesse sentido
de descentramento identitário que concebemos a pessoa com surdez como ser
biopsicosocial, cognitivo, cultural, não somente na constituição de sua
subjetividade, mas também na forma de aquisição e produção de conhecimentos.
Nesse contexto de compreensão é que legitimamos a
construção do Atendimento Educacional Especializado para pessoas com surdez por
meio da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva Inclusiva, que
disponibiliza serviços e recursos. Esse atendimento tem como função organizar o
trabalho complementar para a classe comum, com vistas à autonomia e à
independência social, afetiva, cognitiva e lingüística da pessoa com surdez na
escola e fora dela. O AEE PS, na
perspectiva inclusiva, estabelece como ponto de partida a compreensão e o
reconhecimento do potencial e das capacidades desse ser humano, vislumbrando o
seu pleno desenvolvimento e aprendizagem. As diferenças desses alunos serão
respeitadas, considerando a obrigatoriedade dos dispositivos legais, que
determinam o direito de uma educação bilíngüe, em que Libras e Língua
Portuguesa escrita constituam línguas de instrução no desenvolvimento de todo o
processo educativo. Para
efetivar o cotidiano escolar do AEE PS, aplicamos a metodologia vivencial, que
leva o aluno a aprender a aprender. Essa metodologia é compreendida como um
caminho percorrido pelo professor, para favorecer as condições essenciais de
aprendizagem do aluno com surdez, numa abordagem bilíngüe. Nesse sentido, o
professor do AEE PS, na condição de autoridade, para gestar e com
responsabilidade para construir o ambiente de aprendizagem para esse aluno,
busca os métodos, escolhendo os melhores procedimentos e recursos para
operacionalização da aula especializada.
REFERÊNCIAS:
_________.Mirlene Ferreira Macedo. Educação Escolar Inclusiva das Pessoas com Surdez na Escola Comum: Questões Polêmicas e Avanços Contemporâneos. In: II Seminário Educação Inclusiva: Direito à Diversidade, 2005, Brasília. Anais... Brasília: MEC, SEESP, 2005. p.108 - 121.
DAMÁSIO, M. F. M.; ALVES, C. B. Atendimento
Educacional Especializado do aluno com surdez. Capítulo 2. São Paulo: Moderna, 2010.
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